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H 20 anos me dedico a cuidar e entender o que acontece aos pacientes com obesidade. Operei no mundo todo, escrevi livro e artigos, fiz mestrado e doutorado e, principalmente, vivenciei e vivencio a vida deles. Aprendi muito. O Brasil um dos pases com uma das maiores epidemias de obesidade, mas ser que ns e o governo sabemos realmente quais as reais consequncias dessa doena?

Ser que a populao sabe que a infiltrao gordurosa no fgado, conhecida como esteatose heptica, pode levar a uma hepatite por gordura e cirrose heptica? Hoje, essa j a segunda causa de transplante de fgado. E quantas das mortes anotadas como infarto decorreram de uma barriga volumosa, que sabidamente inibe uma enzima protetora das coronrias e facilita o acmulo de gorduras nela?

Diversos estudos demonstram que, em alguns anos, nenhum sistema de sade ter capacidade financeira de arcar com os custos de pacientes infartados, hipertensos, diabticos e com outras tantas doenas causada pela obesidade.

Estamos lidando com uma epidemia de ramificaes descontroladas, potencializada por uma populao mal informada. Campanhas para enfrentar a aids, o tabagismo e mesmo para estimular o uso do cinto de segurana inicialmente chocaram a populao, mas pouco a pouco todos entenderam que, s vezes, o impacto de uma m notcia serve como aprendizado.

dever nosso, e principalmente do governo, demonstrar a trgica histria de sade que acompanha a obesidade assim como fizemos com o fumante. a partir da que cada um deve decidir se esse o caminho que planejava trilhar. Era isso que voc imaginava quando criana?

O excesso de peso pode dificultar o caminhar e as atividades cotidianas mais simples, como tomar banho ou se higienizar. No se trata de discriminar o obeso. Pelo contrrio. Estamos falando de uma doena, e no de preguia ou gula. Existem milhes de indivduos com obesidade em filas para tratarem problemas associados a ela.

A cirurgia baritrica

O Sistema nico de Sade incorporou s suas diretrizes medidas como a disponibilizao da cirurgia baritrica por acesso videolaparoscpico, sabidamente muito mais seguro e menos invasivo. No entanto, essa ainda no uma realidade na maioria dos servios espalhados pelo pas afora.

O acesso ao procedimento ainda est limitado, e no cresce na mesma progresso que a quantidade de obesos em situao de morbidade. O tempo de espera nas filas para a cirurgia baritrica, dependendo do Estado, pode chegar a sete anos. Alguns, como Rondnia, Paraba, Acre, Roraima e Piau, sequer disponibilizam o procedimento.

O Rio de Janeiro, no entanto, tem dado o exemplo e est garantindo vida a essa populao. Em pouco mais de seis anos, samos de uma realidade de 20 cirurgia por ano para cerca de 500 em 12 meses. E todas por acesso videolaparoscpico, o que inspirou o Ministrio da Sade a recomendar o mesmo para todo o pas.

O tempo de espera mdio para atendimento no Rio de Janeiro no chega a um ano e a chamada fila est totalmente equilibrada. Estamos chegando a 2 mil pacientes operados, que juntos perderam quase 100 toneladas de peso.

No Rio, provamos que possvel. Dignidade no tratamento de uma doena que grave e est matando.

Fonte: Editora Abril
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